Pessoas diagnosticadas com autismo, como eu, sempre foram alvo de desafios, críticas e falta de entendimento pela sociedade, principalmente quando falamos sobre escola, terapias, medicamentos, trabalho, mudanças de rotina, ruídos externos, dentre outros fatores. Estas características são, por vezes, imperceptíveis para pessoas neurotípicas, mas há uma brutal diferença quando se insere uma pessoa autista neste cenário carregado de informações.
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento humano que se caracteriza por dificuldades na comunicação social, interesses e hiperfocos restritos e comportamentos repetitivos. Uma em cada 36 crianças são autistas, de acordo com o primeiro Censo Demográfico para Pessoas com Deficiência e TEA do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), datado de 2022. Pela primeira vez, um centro de pesquisa levantou que mais de 2 milhões de pessoas são autistas no Brasil.
Entretanto, preciso destacar que o autismo está sempre muito atrelado às crianças e adolescentes. Quando o processo natural de crescimento acontece, essas pessoas acabam invisibilizadas e têm suas necessidades anuladas — afinal, fato é que autistas crescem e continuam apresentando dificuldades, pois o transtorno não tem cura.
Observo que, em um mundo que exige informações a todo momento — sejam elas apuradas ou distribuídas a torto e a direito —, pessoas não querem mais ouvir, ler ou absorver conhecimentos válidos sobre autismo. Há treze, catorze anos ou mais, era crucial abrir um livro, um blog (como o “Lagarta Vira Pupa”, escrito antigamente pela hoje deputada estadual por São Paulo, Andréa Werner) para que uma mãe que acabara de ter o diagnóstico do filho entendesse melhor a respeito.
“Minha vida não será mais a mesma!”, “O que eu fiz de errado na gravidez?”, “Meu filho será ‘normal’?”, dentre outras asserções e perguntas são as mais ouvidas por mães e pais no fatídico dia em que um neurologista diz: “Seu filho tem autismo”. E é claro que, nestes contextos, estou falando de um modelo familiar bem estruturado, onde um casal se preocupa com seu filho, mesmo desconhecendo o transtorno, e juntos, trabalham para proporcionar a melhor vida que ele poderia ter. Isto porque não comentei sobre pais que abandonam seu filho e sua companheira assim que toma ciência do que a criança tem — e acredite, são mais de 70% dos casos, de acordo com levantamento do Instituto Mano Brown de 2023.
O dia 02 de abril se inunda de diferentes tons azuis nas redes sociais. É o que acontece há pelo menos 18 anos, quando a ONU instituiu que a cor simbolizaria o mês de abril para ser dedicado à conscientização sobre o TEA, em dezembro de 2007. Muitas pessoas e instituições, como organizações sem fins lucrativos, de apoio à causa e até mesmo pessoas públicas divulgam em seus perfis conteúdos referentes à data.
No entanto, percebo também um aumento da romantização da causa autista de maneira excessiva e inadequada. Pessoas diagnosticadas com o transtorno passam a ser chamadas de “pessoas especiais”, “anjos azuis”, ou então, suas famílias ouvem que “Deus só dá filhos especiais para famílias especiais”. Na realidade, o que verdadeiramente passa, é que algumas terapias podem não funcionar para um autista, mas para outro(s), pode ser uma grande solução. Ocorre também que as famílias nem sempre possuem o atendimento médico assertivo de forma digna, e precisam procurar clínicas particulares que são associadas por seus elevados preços de tratamentos, medicamentos e consultas.
Deve-se entender que os passos para uma possível mudança na forma como a população enxerga e se solidariza com a causa começa por uma atividade em decadência: a leitura. Principalmente de artigos, livros e revistas que falem sobre o transtorno de forma leve e de fácil compreensão. Conversar com autistas e com suas famílias também ajuda a desenvolver um melhor conceito sobre o processo diagnóstico. Além disso, a procura por eventos como palestras e capacitações na área pode ser uma grande aliada.
Que abril possa ser um mês comum, sem azular as mídias sociais, sem romantizar o TEA, e que seja cheio de inclusão na rotina diária, assim como em todos os dias do ano.